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A preguiça, O Cansaço E Os 20 Centavos

Leia opinião do escritor Carlos Eduardo Magalhães sobre a onda de protestos em São Paulo
por Carlos Eduardo de Magalhães
Estou ficando velho, penso isso já faz algum tempo. Faz dois anos parei de jogar futebol. Vejo gente na casa dos vinte anos e são tão moços, e tão próximos da idade das minhas filhas...
Quinta-feira passada eu fui ao lançamento do livro Frederico Barbosa, na Casa das Rosas, na avenida Paulista. A passeata contra o aumento no valor da passagem do transporte público esteve ali em frente. Olhei-a sem curiosidade, com um misto de preguiça e cansaço, e lembrei que minha sobrinha estaria no meio daqueles jovens. Por um momento pensei, que bom que se protesta contra o aumento na tarifa e não precisam protestar por liberdades individuais, pelo direito de discordar e de se expressar.
Assim que ouvi a primeira bomba, telefonei para minha irmã, que logo contatou a filha que estava bem, afastada do enfrentamento. Estavam na frente do shopping Paulista quando fui embora, andando em sentido contrário para pegar o metrô. A primeira entrada para a estação Brigadeiro estava fechada, o que amolava bastante as pessoas que, como eu, estavam cansadas depois de um dia, ou uma vida, de tanto trabalho. Não gostei de ver as guaritas da polícia no chão, nem o lixo espalhado no meio da avenida, nem a pichação, atos que devem ter acontecido antes das bombas, já que quando passaram pela Casa das Rosas não havia repressão policial. Achei aquilo uma babaquice.
Peguei o metrô e fui pra casa, pensando com preguiça, cansaço e um pouco de irritação na passeata, e pensando na minha sobrinha, que me ligou da segurança da Casa das Rosas onde sabia que eu estivera, mas eu descia no Butantã, àquela hora.
Dia seguinte, a manifestação foi no Largo da Batata, onde fica meu escritório. Com preguiça e cansaço, dei com ela, quando ia para o metrô. Não dava pra ir, então fui a pé até o shopping Eldorado, acompanhando um monte de gente cansada e com preguiça, e lá encontrei a Lu, fomos embora juntos de carro.
Muitas revoltas importantes começaram por motivos quase banais, que na verdade foram gota a derramar o copo já pra transbordar. Me vem à memória a revolta do chá, nos Estados Unidos, que precipitou a independência. Também a reação ao ataque a duas mulheres, que o Mulá Omar comandou, que resultou no Talebã.É um erro se achar que se protesta por 20 centavos, ou pouco mais de R$ 10,00 por mês.
Sejamos razoáveis, esse aumento é menor que a inflação do período e menor que o aumento real dos salários. Sejamos razoáveis, esse aumento será incorporado ao vale transporte de boa parte das pessoas. Sejamos razoáveis, a cidade não pode arcar outra vez com quase 1 bilhão de subsídios de transporte por ano. Sejamos razoáveis, 5.000 pessoas, ou que seja 10.000, vá lá, estudantes e não trabalhadores, não representam o conjunto da população.
Mas às favas com a razão. A razão está errada.Esses R$ 0,20 representam o país centralizador e autoritário em que vivemos. Porque “autoritário” não é necessariamente fruto de um regime de exceção, mas sim fruto da vulnerabilidade da população diante dos desmandos do poder. Um poder que paga os deputados mais caros do mundo, que cobra os impostos mais caros do mundo, um poder do qual dependem inúmeros setores da indústria (e para aqueles que são contra o capitalismo, um alerta, vivemos um capitalismo de estado, não um capitalismo de fato), um poder que dia a dia inventa uma lei nova, uma exigência nova de um fiscal, uma obrigação nova do cidadão, um poder que não dá conta da educação, da saúde, da justiça.
E tudo por R$ 0,20.Esses R$ 0,20 representam as pessoas em fila de vinte metros que esperam ônibus na calçada suja e estreita em frente ao prédio em que trabalho, representam o mensalão e os estádios que nos impuseram goela abaixo, representam a distância enorme da corte aos súditos silenciosos, cansados e preguiçosos que somos nós. Perdão, que sou eu, não gosto de falar pelos outros.
Estou ficando velho e acho que passeatas não funcionam, que tudo ficará igual, e parei de jogar bola faz dois anos, ainda que não jogasse lá muito bem, e meu instinto de sobrevivência parece mais aguçado e vai querendo que eu pare esse texto por aqui.
Desce a tarde aqui no Largo da Batata. Faz um calor insuspeitado para um dia de junho. Hoje recebi poucos e-mails. Parece sábado. Acabei de voltar da rua. Depois dos confrontos de ontem, todos me pareceram mais cansados, mais preguiçosos, mais velhos. Mas pode ter sido só impressão.

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