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Noblat: ‘Vai pra casa, Ciro!’

por Ricardo Noblat

Ciro é imprevisível. Lula não confia nele. Um bocado de gente não confia. Vez por outro banca o insensato. É temperamental. E dado a rompantes
O que mais causaria incômodo a Lula? O candidato do PSDB a presidente se eleger direto no primeiro turno da eleição? Ou ele ser obrigado a apoiar o deputado Ciro Gomes (PSB) no segundo turno?
Se for o caso, Lula prefere perder a eleição com Dilma Rousseff do que ganhá-la com Ciro. Dilma foi escolha dele. Ciro tenta se impor à sua revelia.
Nenhum chefe político gosta de ser contrariado. Chefes em geral não gostam.
Lula desenhou a sucessão dele com régua e compasso. Mesmo assim deu errada aquela jogada do terceiro mandato consecutivo. Não convenceu nem seus aliados mais fiéis. Então ele inventou Dilma, sem passado dentro do PT, sem a mínima experiência eleitoral.
Se ela não emplacasse, quem sabe o terceiro mandato não ganharia as ruas e acabaria aprovado pelo Congresso?
Por ora, Dilma de fato não emplacou. Mas a crise financeira internacional sepultou o sonho do terceiro mandato.
Foi um vacilo de Lula concordar com o desejo de Ciro de se testar como candidato. Ciro logo passou Dilma nas pesquisas de intenção de voto.
Lula está sinceramente convencido de que a comparação dos resultados do seu governo com os resultados do governo de Fernando Henrique servirá de combustível para incendiar a candidatura de Dilma.
E que sua presença na campanha ao lado dela dizendo a todo instante “Minha candidata é Dilma”, derrotará José Serra sozinho ou na companhia de Aécio Neves como vice.
Quem quiser pode vir que Lula está fervendo.
Marina Silva, candidata do PV? Lula não aposta um tostão furado na candidatura dela. Descarta que ela possa crescer o suficiente para provocar um segundo turno entre Dilma e Serra.
Uma eleição plebiscitária, tal como ele a concebe, se esgotará no primeiro turno. Se Dilma perder… Foi ela que perdeu. Lula terá feito tudo para elegê-la. E, pensando bem, Serra não será tão mal para ele.
O que não dá, não dá mesmo, é Ciro bater Dilma no primeiro turno e se classificar para concorrer com Serra no segundo. O mito Lula sairia afetado.
O cara não teria demonstrado força sequer para garantir Dilma no segundo turno. Ouviria: cadê o poderoso cabo eleitoral ambicionado por 10 entre 10 candidatos às próximas eleições? Cadê? O gato comeu.
De resto, Ciro é imprevisível. Lula não confia nele. Um bocado de gente não confia. Vez por outro banca o insensato. É temperamental. E dado a rompantes.
O que não murmuraria o PT, hein?
Sim, porque diante de Lula só resta ao PT murmurar. Estrilar? Não. Espernear? Esqueça. Revoltar-se? Jamais! Mas o que murmuraria o PT?
Forçado a ir com Dilma, o PT ainda se veria na humilhante situação de ter que sair gritando por aí no segundo turno: “Ei, ei, ei, Ciro é nosso rei”. Logo o PT que não engole Ciro em São Paulo nem banhado a ouro. Salvo se Lula quiser, é claro.
Divirta-se Ciro enquanto puder como aspirante à vaga de Lula. O seu próprio partido, o PSB, prefere tê-lo como candidato à vaga de Serra.
Ciro piscou primeiro e cometeu a bobagem de transferir seu título de eleitor para São Paulo. Queria agradar a Lula. Sabujo! Mesmo que perca, ajudará a eleger deputados do partido.
Para presidente, o PSB espera o momento certo de anunciar que é Dilma desde garotinho.
PDT e PC do B estão com Dilma.
Com Ciro só tem ele e quase 18% do eleitorado.
Se o eleitor não encontrar o nome de Ciro na célula votará em outro.
Por aqui, eleitor só serve para votar. Para escolher candidato, não. Os caciques escolhem por ele.
Essa é a democracia que temos. Ou melhor: o regime político que temos, qualificado de democrático. Está longe de ser.

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